terça-feira, 17 de abril de 2012

Lesões Genitais Masculinas - Perspectiva urológica - Novo livro

Male Genital Lesions 


Com previsão de lançamento até setembro de 2012, está pronto nosso segundo livro sobre "Lesões Genitais Masculinas - A perspectiva urológica".  O livro, como o primeiro sobre HPV em Urologia, é editado e publicado pela Springer, de Berlin, Alemanha, em inglês, conta com mais de 700 figuras de alta qualidade. Vem escrito por dois urologistas (Homero Guidi e Alberto Rosenblatt) e um dermatologista (Dr. Walter Belda Jr.), todos da Universidade de São Paulo..

O livro vem preencher uma lacuna na dermatologia genital masculina, cuja literatura conta com apenas uma outra obra similar.  Além dos capítulos específicos dos autores principais, o livro conta com uma seção bastante compreensiva e com documentação fotográfica primorosa,  da Anatomia Patológica da região, escrita pela Prof. Dra. Filomena M. Carvalho,  do Departamento de Anatomia Patológica da Universidade de São Paulo, além de um capítulo sobre Cãncer de Pênis, escrito por  um dos maiores especialistas do assunto no mundo, o brasileiro Dr. Antonio Augusto Ornellas do Instituto Nacional do Câncer - INCA, do Rio de Janeiro.

Confira, diretamente no site da Springer alemã, o conteúdo geral e demais informações:

http://www.springer.com/medicine/urology/book/978-3-642-29016-9

Sífilis - algo que pensamos tão distante, mas que está tão perto...

Mais uma vez reproduzo com orgulho uma newsletter do nosso querido Prof. Mauro Romero Leal Passos da Universidade Federal Fluminense e editor do Jornal Brasileiro de DST.


"Heleno, sífilis, negligência, invisibilidade"




Há dias, assisti ao filme Heleno (grande jogador de futebol do Botafogo, 1920-1959).
Gosto muito de cinema, mas, honestamente, neste caso, meu interesse maior era ver a abordagem que seria dada à história de um astro que teve sífilis e dela morreu em um sanatório.
Não sou critico de cinema, todavia me sinto no direito de fazer alguns comentários.
Os autores fizeram um filme primoroso. Embora retrate a vida de um jogador de futebol, o esporte não é o foco principal. A meu ver, o filme é sobre comportamento humano – a história de um homem que escolhe um estilo de vida que define seu trágico futuro. Rodrigo Santoro, no papel de Heleno, tem desempenho digno das maiores premiações nacionais e internacionais. Com certeza, muitos e merecidos prêmios virão para a obra.
No entanto, cabem algumas reflexões de outro teor. A palavra sífilis só é pronunciada uma vez, ao longo de todo o filme. A abordagem dos médicos, em relação ao tema da DST, se não me engano, ocorre em apenas duas ocasiões. Ainda assim, foram observações apáticas, sem mostrar qualquer enfático interesse em que o cliente se tratasse. Nas entrelinhas, era como se lhe dissessem: "O senhor tem sífilis e trate-se se quiser." Em relação às pessoas com quem Heleno mantinha relações sexuais, os médicos não esboçaram qualquer preocupação. Ficamos sem saber se as mulheres com quem ele se relacionou sexualmente também contraíram a doença.  
Ainda não foi dessa vez que a sífilis e as DSTs conquistaram uma boa visibilidade, na tela maior. Não foi dessa vez que médicos apareceram com condutas proativas em relação às doenças sexualmente transmissíveis. 
Aprendi que a arte não tem o compromisso de responder a questões, tampouco de trazer explicações. A arte deve, sim, inquietar, levar o espectador a refletir.
De algum modo, Heleno me inquietou. Não por ter alertado sobre a gravidade das questões ligadas às DSTs, mas por ter silenciado a esse respeito.
Precisamos atuar em todos os cenários, para que menos pessoas sofram de flagelos que há milênios afligem os seres humanos, a despeito de todos os conhecimentos científicos e de todos os recursos disponíveis para combatê-los.
Por fim, vale ressaltar que, independentemente do meu forte, e, muitas vezes, chato, viés de especialista em DST, recomendo o filme. É obra imperdível e traduz com perfeição a alta qualidade do cinema brasileiro da atualidade.
Mauro Romero Leal Passos
Chefe do Setor de DST da Universidade Federal Fluminense
Editor-chefe do Jornal Brasileiro de DST

segunda-feira, 12 de março de 2012

Calvície e Hiperplasia Benigna da Próstata

Os jornais divulgaram recentemente um estudo realizado por espanhóis e ingleses em 87 homens, um número bastante pequeno para um estudo desse tipo, em que a conclusão aponta para a relação entre a calvície precoce, geralmente de caráter androgênico, com a possibilidade maior de desenvolvimento de hiperplasia benigna da próstata.

Calvície androgênica é aquela relacionada com um nível maior de testosterona.  Geralmente são jovens com uma distribuição abundante de pelos corporais que precocemente esboçam as entradas temporais na região do couro cabeludo, as duas famosas "entradas". Também é frequente o aparecimento da calvície na região central do topo do couro cabeludo ( a "calvície do frade", como chamada popularmente em alguns locais).
Esses rapazes tem, visivelmente, um aspecto físico em que as características masculinas, notadamente relacionadas com a pilificação são bastante viris.   "Sobra testosterona".

Esse tipo de calvície responde bastante bem ao uso da finasterida em dosagem menor da que é utilizada para a hiperplasia benigna. O efeito é o mesmo, em locais diferentes.  A finasterida bloqueia a entrada da testosterona no folículo capilar impedindo as reações negativas sobre o mesmo.

Já a hiperplasia ou hipertrofia benigna da próstata é um crescimento das células da glândula prostática,  que ocorre indistintamente nos homens a partir dos 40 anos, isso como média de idade. Se há bastante testosterona circulando esse processo é acelerado e maior.  Há indícios, inclusive, de que possa se desenvolver mais precocemente no homem jovem.

Isso já é conhecido de há muito na prática de cada urologista. O trabalho veio documentar o fato.

Um motivo a mais para termos cuidado com o uso de "suplementação"  de testosterona e seus derivados, objeto do nosso post anterior.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Anti-aging, testosterona, vitaminas e o Harry Potter

Já há algum tempo, um amigo e cliente me assedia com perguntas sobre a minha opinião sobre alguns pontos relativos ao “não envelhecer”, à reposição hormonal e aparentes contradições do uso, digamos assim, à larga mano, da testosterona e seus derivados com finalidades de anti-aging, um  termo pomposo e modernoso, que, na minha opinião, fica muito perto da picaretagem, de uma Medicina  limítrofe, quase uma  para-medicina, para não ser mais deselegante. Respeito apenas a intenção de estudo, não o comércio que se faz, sem nenhuma evidência científica.
E não fujo (a quem quer que queira) a conversar profundamente sobre isso.  Comercial e tecnicamente, uma duplicidade, que por si só já não deveria existir, mas existe e posso confrontar.

Porque hoje, terça-feira de Carnaval de 2012, resolvi saciar a curiosidade do meu amigo?

A deixa veio pelo jornal. Um artigo relativamente longo e não-telegráfico, com direito a pequena chamada na primeira página do jornal de caráter nacional,   dá conta de resultados totalmente negativos em relação ao uso do Ômega-3 como um protetor contra o câncer.  Na mesma esteira outra informação de um  estudo, com mais de 7000 pessoas por uns bons cinco anos,  dando conta de que vitamina B diária também não protege contra acidentes cardiovasculares.

Oh!!!

A bem da verdade, esses estudos científicos, mesmo quando muito bem desenhados/projetados, são estudos epidemiológicos observacionais.  Observa-se uma população selecionada durante um período de tempo e se registra o que aconteceu. Ou,  mais especificamente, testa-se metade da população estudada que, por exemplo,  usa o Ômega-3 diariamente ou a vitamina B e outra metade que não o faz (idealmente, ninguém sabendo quem está usando ou não, idem os pesquisadores mais próximos das pessoas estudadas) e verifica-se ao final de algum tempo o quanto houve de câncer e morte por câncer ou eventos cardiovasculares, ou qualquer outra coisa em teste,  num grupo e no outro.

Belíssimo? 

Um sonoro NÃO. 

Em termos de pesquisa, esse tipo de estudo é mais ou menos comparável à situação insólita de se colocarem pessoas dentro de uma mansão escura, com  um telhado velho, sob forte aguaceiro e com muitas goteiras.  Não se sabe se aqueles que ficarem quietinhos,  de olhos bem  fechados e rezando em uma posição a direita ou a esquerda da casa vai manter-se  seco ou não ao final da tormenta.  Pode ser que uma  goteira enorme, desconhecida,  ao seu lado espirre tanta ou mais água e molhe você, participante do estudo, a partir do chão ou mesmo de cima,  escorrendo por um lustre ou uma viga da mansarda castigada pelo vendaval, enganando-nos totalmente.

Não se controlam outras variáveis. É muito difícil testar hipóteses isoladas. Não há controle com certeza. Os dados não se reproduzem na maioria das vezes. Pode ser que a presença ou ausência da vitamina  X ou Y não tenha sido tão importante quanto o zinco, o magnésio  ou seja lá o que for. Pode ser que muitos já tinham o câncer, indetectável, quando entraram para o estudo, num ou noutro grupo...

Poucos são os estudos que tem um direcionamento de evidência inicial já forte e robusto,  cuja observação, de uma população ao longo do tempo, possa confirmar o que, de antemão,  já se infere ou já se sabe uma verdade em sua parte, por outras pesquisas, por outras observações acumuladas. Exemplo disso é a doença coronariana.  O que entope a artéria é uma placa de gordura. As placas de gordura aparecem mais em quem tem níveis altos de lípides, esse e não aquele, mais esse e menos aquele. Então se observa uma cidade inteira por 10, 20 anos, (Framingham,UK,  no caso), controlando-se os níveis sanguíneos de colesterol, a pressão alta, diabetes, etc. e os achados se reproduzem,  você baixa o colesterol  de quem está em risco e também tem a expectativa confirmada de menos infartos e menos derrames cerebrais.
Agora, do nada,  tirar que comer brócolis que contém  X elemento em abundância pode deter o câncer assim ou assado...

Francamente, os pesquisadores que se dedicam a esse tipo de pesquisa,  “agulha no palheiro”, não estão entre aqueles de primeira linha, com maior nível de financiamento e/ou resultados práticos ou resultados essenciais que permitam que as pesquisas se desenrolem e se desdobrem efetivamente até o balcão da farmácia, o leito do hospital, o centro cirúrgico ou o receituário do seu médico, beneficiando você e a sociedade. .

Muito simples.  Descrever a AIDS foi trabalhoso, mas encontrar o vírus, os seus tipos, sua sequência foram passos essenciais para se começar a saber o que receitar para esses pacientes; senão para curá-los; para pelo menos fazer com que vivessem mais e mais,  antes de ficarem doentes e sucumbirem. Imagine se os melhores pesquisadores  do planeta, uma vez descrita a AIDS, tivessem partido para estudos populacionais para ver se um quilo de alho ingerido com vinagre e mais uns dez quilos de couve-flor não diminuiriam a atividade da doença ou mesmo a erradicariam...

Risível, não é?  Mas a sociedade é risível da mesma maneira quando fica esperando coisas tão maravilhosas e cartesianas para prevenir ou curar isso ou aquilo.  Para não envelhecer, para não ter esse ou aquele câncer.  É uma expectativa ridícula. Melhor assistir menos aos filmes do Harry Potter, abrir a janela e pensar um pouquinho.  Ou pensar muito e se informar mais.

Pesquisa científica médica  é uma rosa bem espinhenta, várias,  no meio de um salão eternamente escuro, com direito ao convívio com cactos mais espinhentos ainda, muitas falsas rosas e alguns animais peçonhentos, sequer imaginados por lady J.K. Rowllng na sua imaginosa saga dos bruxinhos, em seus sete famosos livros.

Muitos potenciais medicamentos descobertos levam décadas para que suas moléculas (o seu "corpo" sejam  vistas e enxergadas, se é que o são, na sua dimensão visual real.  Infere-se, muitas vezes, de uma substância, a  sua presença ou atividade,  por outras reações ou equações químicas. Vírus são detectados por mecanismos engenhosos de sondas que se atiram num verdadeiro “poço” microscópico e, se combinados, ativam um mecanismo radioluscente ou que consuma um outro reagente enzimático e assim por diante.  Remédios levam anos entre suas fases  de teste e, as vezes, só quando  já estão no mercado, usados por milhares e milhares de pacientes, é que sofrem o seu teste final. Uma dúzia ou duas de reações imprevistas em pacientes comuns, ao redor do mundo, que  não foram vistas nos 10 ou 20 mil voluntários (sadios ou pacientes extremamente doentes, sem alternativas) podem aparecer e determinar o caminho do lixo para o medicamento, sua retirada das prateleiras, sua  proscrição total (idem o investimento...).

De outro lado alguns medicamentos e/ou substâncias, na esteira dos “Harry Potter’s” da sociedade,  tornaram-se verdadeiras “Virgens de Vestal”. Puros e inatacáveis.  Inócuos e “naturais” (palavra chave e do momento).

Lêdo engano! 

Chá verde em excesso é  hepatotóxico. Chá de folha de maracujá pode matar,  pois contém cianeto. Ginkgo-biloba  interfere fortemente com a coagulação sanguínea, o que pode ser crucial numa cirurgia.  No polén de abelha pode se desenvolver com facilidade um fungo extremamente agressivo, além dos casos de forte alergia ao produto puro (até anafilaxia, notadamente em crianças). Vitamina A em excesso causa doença. Várias são as hiper-vitaminoses com consequências maléficas. 

De outro lado estão os comportamentos extremos, banir totalmente as gorduras da alimentação pode privar o seu organismo de várias vitaminas que são lipossolúveis e, desse modo,  só absorvíveis com uma mísera gordurinha na dieta...  Comer só “carne branca”, entenda-se aqui peixe e frango, pode também levar a algumas enrascadas. Ilusão idiota. Recentemente foram publicados alguns dados dando conta do aumento inusitado, nas últimas décadas, dos tumores germinativos (leia-se tumores de testículo e ovário) em gente jovem.  Pois bem, uma das hipóteses, de forte “indicação ao Oscar científico”, é de que algo anda "descendo goela abaixo" com hormônios a mais do que deveria...  Um pinto  vira um super frango, enorme, em 45 dias.  Paramos o assunto por aqui para não cansar a inteligência dos leitores.

Bom, e com a testosterona? 

Não é diferente. “O elixir da juventude” já foi obtido e utilizado  na Idade Média, à parte o teatro e rituais ridículos, com o consumo de testículos, mal-passados ou in natura,  de bodes e outros animais à mão. 

Deve receber quem precisa, não é “preventivo” de nada, pelo contrário, ninguém sabe o quão maléfica pode ser para determinado paciente pessoalmente. É o que se verificam com os anabolizantes, em última análise derivados da testosterona, sua principal mãe na "árvore química" dos esteróides. 
Aumenta a massa muscular?  Sim,  aumenta, mas pode golpear o fígado, pode atrofiar os testículos e a cessar a produção de espermatozoides e da própria testosterona natural do indivíduo, mexer com a mama masculina, afetar o sistema cardiovascular,  fomentar um câncer de próstata quiescente, acelerando o seu desenvolvimento e assim por diante.

Quem precisa de testosterona deve ser identificado pela dosagem baixa e pelos sintomas. Muita gente ao ganhar idade tem uma baixa nos seus níveis do hormônio, visto nos exames de laboratório, mas continua copulando a hora que quer, comanda empresas, diverte-se e vive normalmente, sem nenhum sintoma de deprivação ou insuficiência.

Quando juntamos níveis baixos, sintomas da sua falta e não identificamos contra-indicações  (próstata de risco,  deficiência hepática e renal, etc.) podemos repor a dita cuja, controlando efeitos benéficos e eventuais maléficios.

O mesmo se passa com as vitaminas. Identificada a sua deficiência, ou um estado em que sabidamente essa ou aquela vitamina, é ou será  necessária, seu uso deve ser encorajado e monitorado, do contrário, estamos voltando à Idade Média, quando acreditávamos na geração espontânea  fazendo nascer ratos num canto escuro do porão, com um pedaço de queijo e outro de pão velho, mais um bocadinho de umidade... 

Elixires maravilhosos, sangue de virgens e outras expectativas  muito próximas das indulgências que também se compravam nas igrejas...

Open your eyes and wake up!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Sífilis congênita - um problema sério e protelado

Reproduzo abaixo o boletim do Prof. Mauro Romero Leal Passos, um ícone e estudioso, respeitado no Brasil e no mundo, no campo das Doenças Sexualmente Transmissíveis, nosso particular amigo e Professor da Universidade Federal Fluminense. Assino embaixo do que ele disse.

"Prioridade para a sífilis congênita?


Em 1992, o Ministério da Saúde do Brasil assumiu compromisso, junto à Organização Mundial de Saúde, de eliminar a sífilis congênita, em terras brasileiras, até o ano 2.000.

Deu em nada.


Ao longo desses 20 anos (vinte anos), por várias vezes profissionais do Ministério da Saúde discursaram apontando a sífilis congênita como um sério problema de saúde pública no Brasil, mas nada de eficiente foi feito.


Em 8 de fevereiro de 2011, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, definiu três prioridades nas políticas de DST, aids e hepatites virais: o ministério faria o que fosse necessário para dar mais segurança e sustentabilidade aos tratamentos, além de reformular ações de diagnóstico precoce desses agravos, especialmente da sífilis. Disse mais: “Não faz sentido o Brasil, que conseguiu tanto sucesso no controle da transmissão vertical do HIV, não conseguir controlar a sífilis congênita”.


Por fim, o ministro referendou o compromisso assinado pela presidenta da República, Dilma Rousseff, com os movimentos sociais. “Será o programa de governo para o Departamento de DST, aids e hepatites virais. A Cnaids e a sociedade civil são muito importantes no monitoramento da execução desses compromissos”, asseverou.




Um ano depois, não conseguimos identificar ações efetivas e contundentes no combate à sífilis congênita.


Por que ministros de Estado, no Brasil, não cumprem o que falam?


Apesar de o ministro ser médico, vale lembrar que sífilis congênita é a continuação, em primeira instância, da sífilis adquirida por homens. Vale ainda assinalar que não há qualquer comprovação, em estudos publicados em periódicos científicos, de que a distribuição de preservativos em sambódromos atue efetivamente na diminuição das DSTs.



Mauro Romero Leal Passos

Professor associado chefe do Setor de DST da

Universidade Federal Fluminense"

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fim das sacolinhas - opinião do cidadão*.


Às vezes eu me pego pensando em quão ardilosa é um parte da sociedade brasileira, uma pequena parte, e quão boba é o resto (enorme) dela.

Festeja-se junto com o aniversário de São Paulo, amanhã, o fim das sacolinhas plásticas dos supermercados.
Ecologia que atende o interesse econômico.

Os varejistas vão agir como os atacadistas que não fornecem embalagens e cobram mais barato, mas vão continuar cobrando o preço cheio do varejo, agregando ainda a venda das coloridas sacolas ecológicas.

Nos Estados Unidos não usam sacolas plásticas (ou usam biodegradáveis), mas se você faz compras em certo volume ainda existem os bons sacos de papel, grandes,  reciclados e recicláveis.  Aqui não.

Consumidor vire-se! Compre as nossas sacolas ecológicas! Numa compra de mês, imagine quantas...

Por que não então não voltarmos ao tempo do óleo em tambor, daquele que a gente levava o litro para encher, o mesmo que fazíamos com o tamborzinho de leite? 

E os pets que atulham os rios? Nesses ninguém vai mexer, porque comprar refrigerante a granel é inaceitável e aqui a ecologia não funciona, ou não interessa, pois quem teria que por a mão no bolso não seria o consumidor!!!

Wake up my fellow citizens!

* Janeiro é més de férias e reflexão. Na proposta desse blog, não só a Medicina e a Urologia estão em pauta, antes de médico, ou qualquer outra profissão, todos somos cidadãos comuns. Compartilharei algumas reflexões como tal com os leitores.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

ALERGIA AO LÁTEX - PERIGO

Se você é alérgico ao látex, cuidado, redobre seus cuidados pessoais para não precisar de um hospital ou uma cirurgia.

O motivo é muito simples: o Brasil não tem nenhum fabricante de luvas  "latex free" (geralmente as cirúrgicas são feitas de neoprene e as de procedimentos - mais simples - são feitas de nitrilo).

Esse material, vital para o manuseio de pacientes alérgicos ao látex (e mesmo para uso dos cirurgiões que também são alérgicos) era totalmente importado de fabricantes externos que supriam a demanda.

A importação está proibida ou "empacada".

O motivo:  a burocracia do Ministério do Trabalho e Anvisa.

O primeiro, desde 2009, baixou portaria segundo a qual as luvas cirúrgicas e de procedimento deveriam ter gravados em seus punhos, além da data de validade e lote , o seu  CA  estampado.  C A  é o número do Certificado de Autorização de Equipamento de Proteção Individual (EPI). Mais um número brasileiro.

Ocorre que o mercado brasileiro, para esse ítem, não têm tanto "charme" e volume para motivar os fabricantes internacionais  a mudarem a sua produção para atender  a Republiqueta Burocrática ao sul do Equador.  O que por sua vez não acaba com a necessidade desse produto pelos brasileiros  alérgicos ao látex...

Nessas horas, como médico,   dá vergonha,  não se ser brasileiro, mas de não sabermos votar e nem fiscalizar os estafetas de plantão nos milhares de órgãos que infernizam a vida de todos os cidadãos. Sem contar a ineficácia de nossos políticos eleitos (alguns já notificados em 2009 do problema).

Os fabricantes internacionais não deram nem bola para essa exigência.

Isso posto, diante de uma gritaria de familiares de crianças deficientes, que geralmente desenvolvem esse tipo de alergia em função das repetidas cirurgias a que tem que se submeter, a Anvisa suspendeu durante um tempo a exigência. Hoje, contudo, esse que lhes escreve, ao operar as 7 h da manhã num grande hospital de S. Paulo e, por ser alégico ao látex, solicitou uma luva de neoprene.  Foi quando foi informado que os estoques estão baixíssimos, senão inexistentes em vários e vários hospitais. 

Ao término da cirurgia, inconformado, consultou o Departamento de Compras de outro grande hospital paulistano, também de primeira linha  e a confirmação foi imediata:  apenas algumas luvas trancadas a sete chaves, sem perspectiva de fornecimento. Outro grande foi além,  informou que um distribuidor está com uma carga do precioso item retido na Alfândega pela "zelosa exigência" do MT/Anvisa.

Diga-me o leitor se não é para sentar na sargeta da rua e chorar?

Dica - se você suspeita que tem alergia ao látex há um exame específico  ( IG E específico contra o látex) feito com uma amostra de sangue, que além de acusar ou não a positividade quantifica a resposta.